
O que levará o amor a desaparecer?
O amor não é comedido, turba os sentidos.
Uma relação encetada de forma pura, sem ornatos, ingenuamente eterna, pode encobrir-se pelo desgaste do tempo. Mas poderá um amor querer fugir para o inevitável esquecimento, que se reencontra nas memórias do passado? Serão as lembranças compassivas, as que escondem momentos de afecto, superiores às más recordações?
Chamemos memória selectiva, mas a essência está nos bons momentos, sejam eles efemeridades ou constantes. Porque o nosso interior preserva memórias de vivências esquecidas, sorrisos da alma, lágrimas inconsistentes. Embora sejamos postos à prova para salvar uma memória numa luta infrene, o verosímil está em reaver um amor nas memórias do passado. Um amor pode estar condenado no presente mas ecoa nas memórias intensas e marcantes do passado que, na linha do horizonte, serviram de traço para o futuro. Porque o amor pode nascer e renascer sem nunca morrer. Eclodir ou explodir. Nem que seja um rebento nos locais mais inesperados, onde a memória pode ser extinta mas um regresso às vivências fomenta a saudade. O amor encadeia variados estados de espírito, desde o desespero associado à perda, os romantismos, as comicidades, as inseguranças, as certezas que repentinamente são ceticismo.
Será favorável querer extinguir para sempre a recordação de um momento? É possível, sim. Mas impossível é não saber que todos os momentos menos positivos serviram de aprendizagem, estímulo de mudança, para a redescoberta. Porque apagar um passado ou uma memória não impede de nutrir sentimentos um pelo outro, seja na memória prestes a ser perdida, seja nas memórias que estão prestes a conhecer e no amor que podem vir a recuperar. Entre a realidade presente e a memória do passado, entre a procura de esquecer um amor e recuperá-lo.
Sorriam, sonham e amem. Porque as memórias criam-se para serem relembradas, e porque “O que passou, passou, mas o que passou luzindo, resplandecerá para sempre.” GOETHE